Renovação política corre risco, mas “ainda dá tempo,” diz o RenovaBR


Se há uma esperança para o Brasil, ela está na renovação política do Congresso.

E se há alguém trabalhando por essa renovação é o RenovaBR, a ONG fundada em 2017 por Eduardo Mufarej que atua na formação técnica de candidatos a cargos públicos.

Irina bullaraApoiado por doações, o Renova seleciona pessoas com base num currículo sócio-emocional, ética, diálogo e dados e evidência.  Os selecionados passam por um curso de 360 horas no qual aprendem sobre política pública, comunicação e informação política e liderança. 

Na eleição de 2018, o Renova apresentou 117 candidatos e elegeu 17 – nove deputados federais, sete estaduais e um senador.

Deputados do Renova tiveram um papel central nas discussões de projetos como o Marco Legal do Saneamento, o Marco Legal das Startups, a reforma administrativa, projetos que melhoraram o Fundeb, e a Lei do Fisco.

Mas este ano – em que o Renova terá um recorde de 358 candidatos na disputa – o pouco de renovação política que existe no Brasil está sob ameaça.

Um Fundo Eleitoral turbinado (e sem regras claras sobre a sua destinação)  e os recursos sem transparência do ‘orçamento secreto’ estão conferindo uma vantagem épica aos incumbentes – em detrimento dos novatos na política.

Mas Irina Bullara, que dirige o Renova há três anos, diz que “ainda há tempo” para os eleitores se conscientizarem sobre a necessidade de melhorar a qualidade do Congresso – e para doadores pessoa física ajudarem candidatos (particularmente em regiões fora do eixo Rio-São Paulo).

A seguir, trechos da conversa de Irina com o Brazil Journal – e no final, a lista de candidatos do Renova.

A renovação do Congresso este ano deve ser maior ou menor que na eleição passada?

A renovação é sempre uma soma de fatores, e este ano os fatores que estão prejudicando a renovação estão muito escancarados e abertos.

Você começa com uma disputa presidencial muito polarizada, que faz com que as pessoas percam de vista o debate sobre a Câmara e Senado e fiquem muito focados nas eleições presidenciais. 

Mas tem outros dois pontos trabalhando contra a renovação.

O primeiro é que o Congresso este ano se organizou muito para ter fundos para as campanhas. Dos 513 deputados, 448 vão tentar se reeleger nessa eleição. Para isso, elas tinham que garantir fundos, e esses fundos vieram por dois caminhos.

O primeiro é o bom e velho orçamento secreto, que este ano foi um absurdo! Cresceu 195%, passando de R$ 11,3 bilhões para R$ 35,6 bilhões. Grande parte dessas emendas são as tais emendas do relator.

A partir daí, temos um ano eleitoral com emendas pouco transparentes e sabe lá Deus onde está esse dinheiro e como ele está sendo usado.

Ele pode estar indo para as próprias campanhas dos parlamentares?

Provavelmente, porque como é emenda do relator você não tem como olhar, você não tem transparência nenhuma. Então, quando eu falo ‘sabe lá Deus’, eu espero que não, eu espero que não tenha Caixa 2, eu sou uma eterna otimista. Mas o fato é que esse é um mecanismo que promove a desigualdade de meios. 

Aí a gente vai para outro ponto que é o Fundo Eleitoral. Quando falamos do Fundo Eleitoral houve um crescimento absurdo também. São R$ 4,9 bilhões em 2022, 186% a mais do que na eleição de 2018. 

O problema aqui é que não tem absolutamente nenhum critério de distribuição. Você fica com essa quantidade de dinheiro num ano eleitoral difícil, com boa parte do Congresso se candidatando à reeleição e sem critério, sem compliance algum. Então você tem mais dinheiro, menos transparência, e uma turma muito boa e bem intencionada tentando entrar nesse Congresso.

Mas o Fundo Eleitoral não vai para todo mundo? Mesmo para quem está tentando entrar pela primeira vez? 

Ele vai, mas cada partido decide o que fazer com os recursos. 

Até ontem, dos R$ 4,9 bilhões do Fundo Eleitoral, R$ 4,3 bi já tinham sido destinados. Desse total, 436 deputados federais receberam R$ 760 milhões, um valor médio de R$ 1,7 milhão para quem já tem mandato.

Já os candidatos de primeira viagem são 2.867 pessoas, que ganharam R$ 527 milhões, um valor médio de R$ 184 mil.

Ou seja, o dinheiro está lá, mas o dinheiro é distribuído a bel prazer dos grandes oligarcas dos partidos. A gente tem um monte de gente, um monte de liderança partidária falando que quer renovação, que quer novas pessoas, mas na hora de colocar a mão no bolso, cadê a diversidade na distribuição dos recursos?

Quem define a distribuição são os presidentes de cada partido?

Exatamente. E de todo esse dinheiro, a maior parte está indo para a mão de candidatos buscando a reeleição. Isso acontece porque os partidos acham que eles têm mais chance e porque eles têm a possibilidade de ter recebido o orçamento secreto, as emendas parlamentares. 

Isso transforma a entrada de alguém novo no jogo em algo quase impossível, algo intransponível. Você está indo para a guerra com uma espingardinha. Por mais que você seja uma boa pessoa, bem intencionada, é difícil competir. 

A renovação política está em risco, então?

As pessoas decidem o voto delas para Deputado Federal duas semanas antes ou 48 horas antes da eleição. E as pessoas também tem uma cabeça de manada. Se as pessoas entenderem que aquele voto vai ser perdido elas não votam…

Mesmo na proporcional existe esse efeito manada?

Sim. Fizemos uma pesquisa extensa com a Quaest que mostra o seguinte: ninguém discute muito a eleição para o Congresso, então ninguém sabe muito sobre os deputados. Eles decidem mais no final mesmo. E a maior fonte de informação é a família, é o Whatsapp. Eles perguntam para a família em quem votar, e vão indo. 

A renovação está em risco, mas ainda dá tempo para mobilizar. Nossa crença é a seguinte: são 513 Deputados e sabemos que é um trabalho de longo prazo, mas com 30 pessoas boas no Congresso você já consegue bloquear muita pauta ruim e já dá para fazer muita relatoria boa.

A gente viu o que aconteceu quando o Rodrigo Maia estava lá como Presidente da Câmara. Ele pegava os meninos do RenovaBR porque ele precisava de gente boa para escrever os projetos. Aí a gente teve Saneamento, teve Reforma Tributária, Reforma Administrativa. Era a Tábata, o Rigoni, o Tiago Mitraud, o Vinicius Poit..

Temos que entregar esperança para o Brasil no dia 3 de outubro. Então eu acho sim que ainda dá tempo. Tem gente preparada. Tem gente com campanha boa. Tem gente mobilizada. Então sim, a renovação está em risco, mas dá tempo para mobilizar.

Qual foi a taxa de renovação em 2018?

Na última eleição, a taxa de renovação do Congresso foi bem alta, em grande parte pelo efeito Bolsonaro. Foi mais de 50%. 

Mas falando do RenovaBR, a gente tinha 117 candidaturas, e 17 pessoas foram eleitas: nove deputados federais, um Senador, e sete deputados estaduais. 

Este ano, a gente fez um processo seletivo com mais de 15 mil inscritos e tivemos 250 pessoas fazendo o curso. Quando unimos os três cursos que demos: 2018, 2019-2020 e 2021-2022, a gente vai ter 358 candidaturas. 

Como a inflação está batendo nas campanhas?  Isso é um problema?

É sim. Uma coisa que eu faço muito é ir na ponta. Não adianta querer entender de política da Faria Lima. Tem que ir na comunidade, entender como o líder comunitário pensa. 

E o que aconteceu? Muita gráfica quebrou, a inflação está alta, o que fez com que os valores de materiais também inflacionassem muito: de material, de furadinho, do santinho… Coisas que a gente acha mais bobas, mas que é o que compõe uma campanha de rua.

As gráficas começaram a pegar ordens, e quem tem dinheiro na mão ela emite, quem não tem ela segura. 

Hoje [terça-feira], faltam R$ 600 milhões do Fundo Eleitoral para serem repassados e gastos nos próximos 10 dias. Ou seja, R$ 60 milhões por dia. É um absurdo isso. Quem teve dinheiro upfront teve uma vantagem em relação a quem está correndo atrás das vaquinhas, de fazer a campanha rodar, de pagar as pessoas.

Precisamos ter transparência dos partidos de como e quando é feita essa distribuição. O que mais escutamos dos nossos alunos é que o Partido tinha dito que ia cair o dinheiro no dia 1, e que ainda não entrou. 

Quando olhamos o tamanho do Fundo Eleitoral e a forma como é distribuído, ele não tem critério, não tem prazo, não tem compromisso com o que foi combinado. E tudo isso impacta no final da eleição. Porque simplesmente, se a gente trouxer tudo a valor presente, o dinheiro distribuído no primeiro dia da campanha vale mais do que o dinheiro distribuído no final.

O que você diria para uma pessoa física que queira contribuir para o RenovaBR nesta reta final? O que ela poderia fazer?

Quando estamos falando de doações de pessoas físicas, elas representam só 10% das doações. As pessoas têm que estar mais mobilizadas. O Renova não tem qualquer relação com financiamento de campanha. Nossa única função é formação, mas entendemos que a sociedade civil tem que estar engajada. E as pessoas físicas podem doar dentro da regra.

Mas qual o problema? As pessoas que têm mais condições de doar acabam estando no eixo Rio-São Paulo. E é muito importante que a gente tenha uma visão de Brasil, de longo prazo. 

Então o que as pessoas podem fazer? Primeiro, estudar, procurar seus votos e apoiar candidatos da maneira que elas puderem. Depois, se elas puderem ajudar candidatos para além de seus Estados, elas devem fazer isso. 

Porque são 513 pessoas comandando o Brasil, e tanto faz se ela é de São Paulo, do Rio, do Piauí, ou do Amazonas. Dentro do Congresso é importante que tenham pessoas de todos os partidos, de todos os Estados e de gêneros e raças diferentes, mas que pensem no bem comum. Se a gente ficar com uma visão ‘bairrista’, apenas estadual, a gente não vai transformar o Brasil na potência que a gente promete há anos.

Na medida em que a cultura da doação política aumenta, nesta campanha estamos começando a ver o surgimento dos doadores ideológicos — que apostam em candidatos que defendem causas sociais ou de costumes nas quais eles acreditam. Você está vendo isso como uma tendência ou são casos isolados?

Eu acho que a cultura da doação está aumentando, e isso é muito bom. Às vezes as pessoas têm medo de se envolver em política, mas a sociedade civil está se apropriando dessa cultura de doação, de ajudar na campanha. Isso acho que é uma tendência e devemos incentivar. Agora, os doadores decidem baseado em suas crenças pessoais. Aqui no RenovaBR, a gente dá opções de candidatos para que todas as crenças e visões sejam contempladas.

Para conhecer a lista de candidatos do RenovaBR, clique aqui.


Geraldo Samor e Pedro Arbex





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