Cidades amigas das pessoas idosas


Regiões do Sul e do Sudeste brasileiro receberam o título de Cidades Amigas da Pessoa Idosa por parte da OMS. São muitos os fatores necessários para criar um ambiente convidativo para o público idoso, mas é muito necessário que isto aconteça

Olá, leitores! Que bom estar de volta. Estive muito feliz nos últimos dias com as repercussões positivas da estreia da coluna no domingo passado.

Todos estamos juntos nesta bela – e, às vezes, bastante desafiadora – jornada da vida, e a temática do envelhecimento é um assunto urgente de se discutir. É necessário repensar o presente para possibilitar um futuro melhor a uma população que vive mais e mais a cada ano. É muito bom poder compartilhar este assunto com vocês e estimular cabeças pensantes justamente a repensar e a ver-se como parte desta mudança.

Nesta semana, eu estava organizando as aulas do curso de Ergonomia Doméstica, que ministro como módulo de pós-graduação há muito tempo. Cada vez que me debruço sobre o conteúdo a ser ensinado para uma nova turma, preciso atualizá-lo, afinal há sempre uma novidade a compartilhar. Ao fazer isto, me deparo com as influências dessas novidades sobre as pessoas e as comunidades. Também sempre tenho algum insight sobre o que a sociedade pode fazer para lidar com estas tais novidades.

Em 2005, eu estava presente no XVIII Congresso da Associação Internacional de Gerontologia e Geriatria (IAGG), no Riocentro, Rio de Janeiro, quando um grupo se reuniu para discutir a necessidade de medidas que estimulassem as cidades a promover mais a participação social e a autonomia das pessoas idosas, além de implementar medidas de adaptação e criação de espaços mais compatíveis com a capacidade física e cognitiva do público com 60 ou mais anos. O projeto global Cidades Amigas das Pessoas Idosas foi desenvolvido por Alexandre Kalache e Louise Plouffe, dois grandes estudiosos do envelhecimento, na sede da Organização Mundial de Saúde (OMS), em Genebra, na Suíça. Dois anos depois, foi publicada no Brasil a versão em português do Guia Global das Cidades Amigos da Pessoa Idosa.

De lá para cá, começamos a ver iniciativas de algumas cidades brasileiras em implementar medidas de acessibilidade e inclusão social das pessoas. Porto Alegre foi a primeira cidade brasileira a receber o selo da OMS, em outubro de 2015. Em 2019, criou-se um projeto de lei para o programa Cidade Amiga do Idoso. Além de Porto Alegre, Esteio e Veranópolis, no Rio Grande do Sul; Pato Branco, no Paraná; Balneário Camboriú, em Santa Catarina e Jaguariúna, em São Paulo também já foram reconhecidas como Cidades Amigas da Pessoa Idosa pela OMS.

As questões de acessibilidade urbana são íntimas das questões da ergonomia, tendo em vista que quanto mais os profissionais compreenderem a relação do ser humano com o espaço em que vive e o maquinário que usa no seu dia a dia, mais eficiente será esta interação, diminuindo o risco de acidentes e de exclusão social. Ouve-se falar da ergonomia, como ciência prática, nas empresas, sobretudo aquelas em que se realiza trabalho repetitivo, como telemarketing e frigoríficos, onde o risco de doenças ocupacionais é alto e as empresas precisam investir na qualidade do maquinário, nas melhorias do espaço físico e no bem-estar de seus funcionários para que o trabalho não seja interrompido por inúmeros atestados médicos.

Entretanto, a ergonomia é uma ciência presente também no nosso dia a dia. Afinal, prédios projetados dentro da norma ergonômica de acessibilidade favorecem a circulação e utilização segura pelos públicos com características específicas, como crianças, gestantes, cadeirantes, pessoas obesas, pessoas com deficiência e… idosos. Há muito tempo já se pensa – e se faz – rampas de acesso em todo prédio público, por exemplo. Mas quando se fala de interação homem-ambiente, também há que se pensar nas questões psicossociais e de qualidade de vida. Cidades com acesso fácil a áreas verdes, por exemplo, estimulam a prática de atividade física e a interação social. O convívio com a natureza pode ser bastante importante para a nossa saúde mental, não só física.


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O guia da OMS para a criação de projetos de Cidades Amigas das Pessoas Idosas contempla temas como espaços exteriores e edifícios, transporte urbano, habitação, participação social, respeito e inclusão social, participação cívica e emprego, comunicação e informação, serviços de saúde e projetos comunitários. Todos estes fatores influenciam na qualidade de vida daqueles que envelhecem. Imaginem uma pessoa idosa, já não tão hábil na locomoção, sendo desafiada pelo degrau gigante de um ônibus urbano. Imaginem pessoas idosas lendo placas de identificação de locais públicos com letras pequenas sobre pouco contraste. Lembrem-se das questões de empregabilidade das pessoas mais velhas. São muitos os fatores que uma cidade precisa estimular para criar um ambiente convidativo e aconchegante para o público idoso. Porém é muito necessário que isto aconteça porque, como falo sempre, se não houver promoção de saúde e participação social, a conta do abandono das pessoas idosas chegará aos cofres públicos. Isto, claro, sem mencionar que todos nós temos direito à dignidade no processo de envelhecer.

Se envelhecer é uma arte, e a arte é, em sua mais pura essência, sempre questionadora de algo, que sejamos artistas! Que comecemos a questionar o que nos cerca. Será que todos recebem o mesmo cuidado com o envelhecimento ao qual nós temos acesso? Será que estamos distantes ainda de implementar na prática questões relacionadas a direitos humanos e dignidade para todos? O que podemos fazer enquanto profissionais? O que podemos fazer enquanto sociedade?

Em junho estive presente, como convidada, em um evento na Câmara do Deputados em atenção ao Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, promovido pela Comissão do Idoso da Câmara Federal, no qual discutiu-se as questões do idadismo, o preconceito de idade e os estereótipos sociais da velhice, onde também esteve presente o querido Dr. Alexandre Kalache, como conferencista. Gostaria de compartilhar com vocês o que estava escrito em dois de seus slides, pois ambos são falas fundamentais para estimular o pensamento sobre a nova velhice e o novo idoso no Brasil. E se a gente pensar mais sobre isto, com certeza entenderemos o nosso papel.

“A importância de ver-se, quando mais jovem, o velho de amanhã”. Que frase necessária!


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“O poder que tem a sociedade civil quando ela se organiza e busca, com determinação, ser ouvida e ter espaço.”

Como cidadãos, temos o dever de estimular a quem nos representa nos palanques a juntarem-se a nós, em coro, por um envelhecimento digno para a população brasileira. Não é consolando as pessoas idosas pelo fato de serem velhas que uma sociedade avança. É, sim, aceitando a velhice como uma parte normal do curso de nossas vidas, respeitando suas particularidades, mas estimulando o seu protagonismo.



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